sábado, 27 de agosto de 2011

O gosto do pecado

DAVID COIMBRA Simplesmente demais!



Há quem diga que alemães, ingleses e japoneses, povos mais adiantados, não ligam mais para isso de infidelidade. Um inglês moderno, se você deseja a esposa dele e ela deseja você, ele suspira com resignação e, logo depois, dá de ombros:

– No problem, baby.

E lá vão você e a esposa do inglês para a alcova.

Sabe como se chama isso?

Ci-vi-li-za-ção.

Porque, na essência, o ato em si não é errado. Quer dizer: o fato de uma mulher se repoltrear e se refocilar e até espadanar com um homem, qualquer homem, não prejudica nenhuma outra pessoa. É uma atividade que só diz respeito aos dois envolvidos. A infidelidade só causa dano se assim for convencionado. Por exemplo: a convenção, aqui no Brasil, é de que um homem com duas mulheres é um safado. Bem, nos países muçulmanos um homem pode ter até quatro, desde que as sustente, o que deve dar uma imensa conta de supermercado. Convenções, pois.

O pecado, nesse caso, é relativo. Até porque o chamado pecado original é uma invenção de Santo Agostinho. Por volta do século IV, Agostinho estudava em Cartago e levava uma vida dissoluta. A mãe dele, muito religiosa, vivia a censurá-lo, como costumam fazer as mães de todos os séculos. Ele pensava nos argumentos dela, mas não abandonava a esbórnia. Um dia, Agostinho estava na cama com duas mulheres. Em vez de regozijar-se por sua boa sorte, ele começou a sentir-se culpado. Então, ergueu os olhos para o céu e implorou:

– Senhor! Dai-me a castidade! – e depois de olhar para as suas companheiras e refletir por um instante, acrescentou mais do que rápido: – Mas não agora!

O Senhor o atendeu, tanto que Santo Agostinho tornou-se santo.

Com sua filosofia profundamente moral, Agostinho mudou a Igreja Católica e infiltrou nas mentes ocidentais, inclusive a sua, caro leitor, a noção do pecado. Da culpa. Você nasce culpado, porque o homem pecou desde que foi criado.

É isso, em breves e toscas letras.

Contei essa história no Pretinho Básico, dias atrás. E disse mais: disse que a culpa é o tempero da traição. A mulher que trai, e que se sente culpada por trair, trai com mais gosto. O pedaço de que ela prova é mais saboroso, porque é proibido. Agostinho, assim, transformou o sexo em uma atividade mais excitante e, de quebra, deu emprego a todos os psicanalistas do planeta.

Pois bem. Depois do programa em que disse isso, algumas mulheres infiéis se manifestaram. Enviaram emails relatando seus casos e concordando: sim, o sabor do pecado se transforma em vício, quando existe a culpa. Tudo bem, já esperava por tal reação, mas não a de uma mulher que remeteu o seguinte email, pedindo para que a mantenha no anonimato, por razões evidentes:

“Ouvi vocês falando sobre traição no PB e decidi contar o que vou fazer: vou trair meu marido com dia e hora marcados. Não tenho um motivo forte para fazer isso. Mas vou fazer. Porque ele me irrita. Ele só pensa em futebol, só fala em futebol, só quer saber do time dele. Eu já sabia disso quando casamos, mas acho que a coisa piorou com o tempo. Domingo que vem eu queria que ele fosse comigo a um lugar, não vou dizer qual, mas é importante pra mim. Ele respondeu que não deixa de ir ao Gre-Nal mesmo que me separe dele. Então está bem, ele vai ao Gre-Nal. E eu vou me encontrar com um colega do meu trabalho que há anos dá em cima de mim. Enquanto ele estiver vendo o time dele levando uma surra, vou surrá-lo bem direitinho de outro jeito. Precisava fazer esse desabafo, pra quem sabe os teus leitores prestarem mais atenção às mulheres deles”.

Se você vai ao Gre-Nal, essa história talvez o tenha deixado inquieto. Não há motivo para tal. Pense nos alemães, nos ingleses, nos japoneses. Seja ci-vi-li-za-do. Importar-se com traição é coisa de terceiro mundo.

Fonte: Zero Hora 27/08/2011

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